A Evangelização Infantil Espírita: Ponto de partida

Por Erika Saturnino

No final do século XIX, os centros espíritas existiam, mas os estudos eram voltados principalmente para adultos. As crianças acompanhavam os pais, mas não havia educação espírita específica para elas.

Surgiu a reflexão: se a infância é o período mais favorável à educação do Espírito, por que não cuidar também das crianças?

Primeiras experiências práticas

1-Sacramento – Minas Gerais

Eurípedes Barsanulfo (1880–1918) funda, em 1907, o Colégio Allan Kardec. Escola inovadora para a época, focada na educação moral e espiritual das crianças.

2-São Paulo – final do século XIX e início do XX

Anália Franco (1853–1919) foi uma educadora e filantropa pioneira da educação inclusiva no Brasil. Fundou mais de 70 escolas e instituições para mulheres, negros e pobres e, durante a gripe espanhola de 1918, transformou escolas em hospitais, utilizando passes e água fluidificada para salvar asiladas. Atuou também no abolicionismo, no jornalismo e na inovação pedagógica, deixando um legado social e educacional fundamental.

Em O Livro dos Espíritos, encontramos esclarecimentos importantes sobre a infância e a educação das crianças.

Vamos ver:

Questão 383  – Utilidade da infância

Pergunta: Qual a utilidade da infância para o Espírito?

(Resposta resumida): Durante a infância, o Espírito está mais acessível às impressões e conselhos, sendo mais brando e receptivo.

Essa fase é fundamental para que educadores possam reformar o caráter e reprimir maus pendores, auxiliando o progresso moral do Espírito.

? Reflexão: A infância é o período ideal para a formação moral e espiritual, porque o Espírito está mais aberto às influências educativas.

Questão 385 – Mudança do caráter na adolescência

Pergunta: Por que o caráter muda ao sair da adolescência?

R: Na adolescência, o Espírito se revela como realmente é, deixando de lado a inocência aparente da infância.

As virtudes e defeitos adquiridos na infância se manifestam e os traços individuais tornam-se visíveis, mostrando se o Espírito manteve ou não os aperfeiçoamentos adquiridos, sempre com marcas de existências anteriores.

? Reflexão: A adolescência é uma fase de consolidação moral, em que se percebe a evolução ou necessidade de novos ajustes no caráter do Espírito.

E o que a Ciência nos revela sobre o período infantil?

Da Primeira Infância à Adolescência

1?? Primeira Infância (0 a 6 anos)

Características:

Maior plasticidade cerebral; desenvolvimento mais rápido do que em qualquer outra fase.

As experiências moldam: emoções, valores, segurança afetiva, capacidade de confiar

Neurociência:

Conexões neurais se formam através do afeto, exemplo e repetição. A criança aprende mais pelo que vive do que pelo que ouve.

Papel dos pais:

Referência emocional e moral.

Tutores completos: proteção, limites, exemplo e afeto

? “Tudo o que é vivido nessa fase deixa marcas profundas.”

2?? Segunda Infância (6 a 10/11 anos)

Características:

Desenvolvimento do pensamento lógico concreto (Piaget).

Compreende regras, diferencia certo e errado, desenvolve senso de justiça.

Psicologia:

Moral ainda heterônoma, baseada em regras externas (pais, escola, religião). Necessidade de coerência dos adultos.

Papel dos pais:

Tutores diretos, continuam a ensinar valores. Ferramentas: diálogo, coerência, consequências educativas.

O exemplo ainda é a principal ferramenta

? “A criança observa se o adulto vive aquilo que ensina.”

3?? Pré-adolescência (10/11 a 12/13 anos)

Características:

Fase de transição, início das mudanças físicas e emocionais. Questionamentos frequentes: “Por quê?”, “Isso é justo?”, “Quem sou eu?”

Neurociência:

Emoções intensas; cérebro emocional se desenvolve antes do racional. Maior sensibilidade a críticas e rejeições.

Papel dos pais:

De tutores diretos para guias. Ouvir mais, impor menos.

Ajudar a criança a pensar, não apenas obedecer.

? “O diálogo começa a substituir a ordem.”

4?? Adolescência (12/13 a 18 anos; até 21–25 anos segundo neurociência)

Características:

Desenvolvimento do pensamento abstrato. Construção da identidade, busca por autonomia e pertencimento.

Neurociência:

Córtex pré-frontal (decisão e controle de impulsos) ainda em formação. Adolescentes questionam, experimentam e testam limites.

Papel dos pais:

Não mais tutores absolutos. Tornam-se referências morais.

Precisam: confiar, orientar e estabelecer limites com respeito.

? “O jovem não precisa de controle total, mas de direção segura.”

Resumo das Orientações Espíritas importantes:

Questão 582 de O Livro dos Espíritos: A paternidade é uma missão e um dever de todos os pais.

Questão 685: A educação pode modificar a natureza do Espírito ? desenvolve faculdades morais e ajuda a vencer tendências inferiores.

Questão 917: O meio mais eficaz de melhorar a humanidade ? a educação

Reflexão central:

Pais que se curam de suas próprias feridas emocionais e espirituais têm mais capacidade de educar, amar e guiar seus filhos.

Pais feridos, sem autocuidado, podem transmitir dores e limitações.

FERIDOS, FÉREM.

CURADOS, CURAM.

A orientação infantil espírita começa pelo exemplo e pela transformação dos próprios tutores.