Cumprir o Manual

por Richard Simonetti

O jovem foi admitido para trabalhar numa multinacional.

A empresa, muito bem organizada, ofereceu-lhe um curso de vários meses, preparando-o adequadamente para as funções que exerceria.

Logo após o treinamento, recebeu um manual de orientação quanto à atividade profissional, seu relacionamento com chefes e colegas, sua postura na vida profissional.

Seis meses depois foi chamado ao departamento de pessoal.

Disse-lhe o encarregado:

– Agradecemos sua participação em nossa empresa, porém, segundo instruções da chefia, o senhor está dispensado de suas funções.

O rapaz levou um susto.

– Demitido? Não é possível!

– Não só é possível, como está acontecendo.

– Afinal, o que fiz de errado?

– O senhor esqueceu-se de cumprir as instruções.

Displicente, não se dera ao trabalho de estudar o manual, o que o levou a cometer vários deslizes.

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Algo semelhante ocorre em relação ao Cristianismo.

Se funcionasse como uma grande empresa, os cristãos, em grande parte, estariam demitidos por não cumprirem o manual: o Evangelho. Assim como o jovem displicente, a maior parte dos adeptos do Cristianismo prefere ignorá-lo.

Como colocar em prática suas diretrizes sem conhecê-las, sem assimilá-las pelo estudo e a reflexão que as façam repercutir no comportamento?

Em cursos de Espiritismo, grande número de aprendizes não sabem dizer quem foram os evangelistas, o que eram as epístolas ou qual o tema a que se reporta o livro Atos dos Apóstolos.

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Desde as eras mais remotas, nas civilizações mais antigas, o pensamento religioso humano está vinculado ao culto exterior.

Religião geralmente é sinônimo de presença nas igrejas, adoração de imagens, ritos e rezas, ofícios e oficiantes. Ocorre com muitos cristãos.

Imaginam que ser religioso é simplesmente frequentar as igrejas, submeter-se às práticas ritualísticas, sem atentar ao manual.

Quem se disponha a ler pelo menos o Sermão da Montanha, capítulo especial, o mais belo poema da humanidade, onde está a síntese do pensamento de Jesus, encontrará a seguinte observação do Mestre (Mateus, 7:13-14):

Entrai pela porta estreita. Pois larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição e muitos são os que entram por ela.

         Mas estreita é a porta, e apertado o caminho que conduz à vida, e são poucos os que a encontram.

                          No Capítulo 18, de O Evangelho segundo o Espiritismo, o manual evangélico estudado à luz da Doutrina Espírita, diz Allan Kardec:

Larga é a porta da perdição, porque são numerosas as paixões más e porque o maior número envereda pelo caminho do mal.

         É estreita a da salvação, porque a grandes esforços sobre si mesmo é obrigado o homem que a queira transpor, para vencer suas más tendências, coisa a que poucos se resignam. É o complemento da máxima: “Muitos são os chamados e poucos os escolhidos”.

         Tal o estado da Humanidade terrena, porque, sendo a Terra mundo de expiação, nela predomina o mal. Quando se achar transformada, a estrada do bem será a mais frequentada.                          

         Dizer que na Terra predomina o mal é uma observação arrojada. Afinal, podemos afirmar que apenas uma minoria da população está envolvida em atividades que podem ser enquadradas como maldosas.

No Brasil, a quantidade de presos é de aproximadamente oitocentos mil para uma população acima de duzentos milhões.

Alguém diria que andam soltos por aí criminosos que mereciam estar na cadeia por furtos, estelionatos, corrupção, estupros, assassinatos, tráfico de drogas…

Assim considerando, vamos estender a estimativa para perto de vinte milhões de brasileiros que mereceriam ver o sol nascer quadrado, a partir das grades de uma prisão.

Mesmo assim, estaríamos longe desse maior número que envereda pelo caminho do mal.

Kardec estaria equivocado em sua afirmação?

De modo algum.

Está absolutamente correto, porquanto mal não é apenas o prejuízo imposto ao próximo quando o exercitamos.

É, sobretudo, o prejuízo que causamos a nós mesmos e à coletividade quando não exercitamos o bem, contrariando nossa filiação divina.

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Segundo a gênese bíblica, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Portanto, o que há em Deus, no absoluto, existe em nós no relativo.

Em O Livro dos Espíritos, dentre os atributos divinos, Kardec fala que Deus é soberanamente justo e bom.

Ora, se o que há em Deus, no absoluto, existe em nós no relativo, só nos realizamos como seus filhos exercitando a justiça e a bondade.

E se não o fizermos, distraídos da responsabilidade de ler, estudar e cumprir o manual evangélico, espiritualmente estaremos demitidos das lides cristãs, ainda que nelas ocupemos cargo de proeminência.